
Ferro e aço: o material que construiu o mundo
Da ordem para desligar a siderurgia Azovstal sob bombardeamento à revolução do conversor Bessemer, exploramos por que razão o ferro e o aço moldaram a história, a indústria e a guerra. Os dois anfitriões explicam como o carbono transforma as propriedades do ferro, como se produz aço e como ferramentas, pontes e charruas mudaram o mundo — antes de analisarem a dependência global do aço, as emissões, o poder geopolítico e a desigualdade no acesso a este material essencial.
Chapter 1
Os ossos da civilização
Keren
Vinte e quatro de fevereiro de 2022. Enver Tskitishvili, diretor geral da siderurgia Azovstal, em Mariupol, na Ucrânia, dá a ordem que esperava nunca ter de dar. Nessa manhã, a artilharia russa tinha começado a bombardear a cidade, e ele tinha de desligar uma siderurgia inteira. E o que me fascina é que isto não é carregar num botão.
Marcelo Costa
Não é mesmo. Num alto forno não existe interruptor. Foi desenhado para trabalhar sem parar, desde o dia em que é construído até ao dia em que é desativado, com paragens de manutenção medidas em horas. E o risco era concreto: um míssil a furar um alto forno cheio de metal líquido. Um dos trabalhadores disse a Ed Conway, o autor do livro Material World, que seria uma espécie de nano Hiroshima. Por isso o encerramento parece um manual de sabotagem industrial. As baterias de coque, onde o carvão é cozido, foram paradas e enchidas com vidro líquido, para nenhum gás perigoso escapar. Cada alto forno foi arrefecendo devagar, e o ferro fundido na base solidificou numa placa.
Keren
E a história repetia se, de certa maneira. Oitenta anos antes, quando os nazis chegaram a Mariupol, encontraram os habitantes a desmontar a fábrica para a tornar inútil. Depois, quando tentaram pô la a trabalhar, os operários fizeram sabotagem em segredo, com incêndios e explosões acidentais. Em 1943, antes de recuarem, os alemães arrasaram a Azovstal convencidos de que ninguém a reconstruiria. E no espaço de um ano os fornos estavam outra vez a trabalhar.
Marcelo Costa
Mas o ponto de partida deste episódio é outro, e é uma ideia que quase todos nós temos. Nos países ricos, o aço parece coisa do passado. É sujo, gasta muita energia, e por isso os países ricos têm fechado siderurgias e importado o produto acabado de sítios onde as emissões de carbono são menos controversas. Vemos uma fotografia de operários com fatos resistentes ao calor a vazar metal líquido e pensamos: isto é a Idade Média. O Conway quer desfazer exatamente esse equívoco. O ferro, com o aço, que é uma liga de ferro e carbono, representa cerca de noventa e cinco por cento de todo o metal que produzimos e usamos. Em 2021, por cada tonelada de alumínio, que é o segundo metal mais usado, fizemos vinte e oito toneladas de aço.
Keren
Vinte e oito para um. Quando penso em metal, penso em cobre, em ouro, em alumínio. E afinal o resto é arredondamento.
Marcelo Costa
É quase arredondamento, sim. E há uma razão física para isso. O que é um metal, afinal? O betão e a pedra são frágeis, racham e estilhaçam. A estrutura atómica dos metais dá lhes uma tenacidade combinada com maleabilidade: podem ser fundidos, martelados, moldados em formas e, acima de tudo, em ferramentas. Se o que nos define é colaborar e usar ferramentas, o ferro e o aço fazem parte do que nos torna humanos. O Conway diz que, se a areia é o tecido de grande parte do mundo e o sal o ingrediente mágico que o transforma, o ferro é o que nos permite fazer coisas, seja ir a algum lado, construir, fabricar ou, nas palavras dele, matar uns aos outros.
Keren
E isto está escondido. Quem vive num país desenvolvido, como os Estados Unidos, o Japão, o Reino Unido ou a maior parte da Europa, tem em média cerca de quinze toneladas de aço na sua vida. Nas pontes, nas casas, nos hospitais, nas escolas, nos carros, nos clipes de papel do escritório e no armamento das forças armadas. Quinze toneladas por pessoa, a maior parte escondida dentro de betão ou debaixo de plástico.
Marcelo Costa
E aqui o número muda de forma brutal conforme o sítio. Na China, o valor ronda as sete toneladas por pessoa. Na África subsariana, é inferior a uma tonelada. Somando tudo, tendo em conta ferrugem, reciclagem e desperdício, existem cerca de trinta e dois mil milhões de toneladas de aço no mundo. Se o dividíssemos por toda a gente, daria cerca de quatro toneladas por pessoa. Ou seja, há uma desigualdade do aço, que o Conway compara à desigualdade de rendimentos. Perguntar se um país tem ferro suficiente para construir os hospitais que salvam vidas, as pontes e os caminhos de ferro que permitem viajar, ou as casas que dão abrigo, é uma pergunta tão boa como perguntar pelo produto interno bruto.
Keren
Guardemos essa desigualdade, porque vai voltar com força no fim. Primeiro quero perceber o que acontece lá dentro. Porque a diferença entre o ferro que parte e o aço que aguenta uma ponte resume se, ao que parece, a um pormenor muito pequeno.
Chapter 2
Ferro, carbono e o interior do vulcão
Marcelo Costa
Um pormenor, sim: o carbono. O aço, apesar do nome, é só uma das variedades de ferro, e o que as distingue é a percentagem de carbono. Numa ponta está o ferro fundido, ou ferro gusa, com três a quatro por cento de carbono, por vezes até cinco. Chama se gusa porque, quando era vazado, solidificava em canais e moldes que lembravam uma ninhada de porquinhos a mamar. É muito duro, mas quebradiço. Na outra ponta está o ferro forjado, quase puro, com carbono em quantidades ínfimas, tão macio que se trabalha à martelada. No meio está o aço, tipicamente com menos de dois por cento de carbono. Nos aços macios, que são os mais comuns, fica muito abaixo de um por cento.
Keren
Mas porque é que um pouco de carbono é bom e muito carbono é mau? Parece uma questão de gosto, quase como o sal numa sopa.
Marcelo Costa
A explicação é uma imagem boa. No aço, os átomos de carbono encaixam entre os átomos de ferro, e formam uma rede forte e imóvel. Com carbono a mais, a rede fica imperfeita e o metal estilhaça com facilidade, é o ferro fundido. Com carbono a menos, os átomos de ferro deslizam uns sobre os outros quase sem resistência, é o ferro forjado. Paradoxalmente, queremos o ferro quase puro, mas não totalmente puro.
Keren
E o mais bonito é que ninguém sabia isto. Durante milénios, a metalurgia foi tentativa e erro, saber passado de geração em geração, com os seus floreados místicos. Um bom ferreiro, capaz de bater um pedaço de ferro fundido até o transformar numa espada de aço, era um dos cidadãos mais valiosos de qualquer reino. Os hititas, por volta de 1400 antes de Cristo, os mestres espadeiros de Quioto, os fabricantes de armas de Damasco, cujas lâminas têm um grão tão fino que ainda hoje ninguém percebeu como o reproduzir. E só mais tarde se percebeu que martelar o metal era uma forma de lhe retirar parte do carbono.
Marcelo Costa
A produção em massa só chegou em meados do século dezanove, com o conversor de Sir Henry Bessemer, que soprava ar através do ferro fundido para retirar apenas o carbono necessário. E há duas obras que contam essa transição. A Torre Eiffel e a Forth Bridge, na Escócia. As duas ficaram prontas em 1889, as duas bateram recordes: a estrutura mais alta do mundo e o maior vão de ponte cantilever. Ambas precisavam de ser pintadas constantemente contra a corrosão. Mas a Forth Bridge é de aço e a Torre Eiffel é de ferro forjado. Gustave Eiffel simplesmente não confiava no aço Bessemer.
Keren
E isso teve custos visíveis?
Marcelo Costa
Teve. A torre usa muito mais ferro, em vãos mais curtos do que seriam necessários com aço, e podia ter sido ainda mais alta. O Conway faz a comparação: caberiam seis Torres Eiffel dentro da estrutura principal da Forth Bridge. Daí em diante o ferro puro cedeu o lugar ao aço: carris que duravam mais, ferramentas mais fortes, barras que permitiam vencer vãos maiores.
Keren
Parecem melhorias pequenas, mas o exemplo da charrua é espantoso. Durante muito tempo lavrava se com paus de madeira, depois com pontas de metal, e no início do século dezanove já havia charruas de ferro fundido com aiveca incorporada. Como o ferro é muito mais resistente do que a madeira, o tempo para lavrar um hectare caiu de vinte para quinze horas. Depois chegou a charrua de aço, e o tempo caiu para três horas.
Marcelo Costa
O truque da charrua de John Deere era camadas: uma chapa de aço duro à volta de um núcleo mais macio. A parte dura corta, o núcleo absorve o choque quando bate numa pedra, em vez de partir como o ferro fundido partia por vezes. E era vendida como autoafiável. Os números do Conway, para uma quinta típica da Nova Inglaterra, são reveladores. Em 1800, com ferramentas sobretudo de madeira, eram precisos pouco mais de sete minutos de trabalho para colher um quilograma de cereal. Em 1850, com ferramentas de ferro fundido, menos de três minutos. Em 1900, com aço, menos de trinta segundos.
Keren
Menos gente nos campos, mais gente a fazer outras coisas. É a vida moderna a nascer de uma lâmina. E ainda assim o aço de que falamos hoje nasce de um sítio quase mitológico. Ed Conway visitou Port Talbot, no País de Gales, e a primeira coisa que viu foi um vagão em forma de submarino a ser enchido com um líquido amarelo avermelhado. Disse em voz alta que parecia lava, e o guia respondeu: é lava.
Marcelo Costa
Os vagões chamam se torpedos e levam o metal do alto forno até à aciaria. Cada torpedo transporta trezentas toneladas de ferro gusa. E o momento mais teatral é a sangria do alto forno. Furam um tampão de argila na base e o ferro corre. Pensamos que seria automático, mas em Port Talbot, como em Azovstal e na maior parte dos fornos americanos, é surpreendentemente manual. Naquele dia, o operador deixou a broca presa na argila húmida, e depois veio uma explosão de faíscas, como uma roda de Santa Catarina, antes de o metal incandescente descer pelo canal até ao torpedo.
Keren
E por dentro? O que acontece no alto forno é cozinha ou química?
Marcelo Costa
É química, e é aqui que muita gente se engana. O minério de ferro, hematite ou magnetite, é óxido de ferro, basicamente ferrugem granulada. Para fazer metal, é preciso arrancar os átomos de oxigénio aos átomos de ferro. É para isso que serve o carvão, transformado em coque: não é só para aquecer, é o agente que retira o oxigénio. O oxigénio larga o ferro e liga se ao carbono. Em Port Talbot, as camadas de minério, coque e dolomite, que funciona como fundente, descem lentamente e passam dos mil e quatrocentos graus. Por cada tonelada de ferro gusa, usa se pouco mais de uma tonelada de minério e pouco menos de uma tonelada de carvão. E o Conway sublinha uma frase que quase ninguém espera: o principal produto de um alto forno não é o metal. É o dióxido de carbono, e em grandes quantidades.
Keren
O principal produto é o dióxido de carbono. Deixa isso assentar.
Marcelo Costa
Por ano, enchemos cerca de mil altos fornos com mais de mil milhões de toneladas de carvão, uma massa superior à de todos os seres humanos juntos. É por isso que a siderurgia responde por cerca de sete a oito por cento das emissões globais, concentradas em muito poucos locais. E, ironicamente, o carvão começou como solução para um problema ambiental. Os primeiros altos fornos, na China no século quinto antes de Cristo e na Europa na época medieval, queimavam carvão vegetal, e a pressão sobre as florestas inglesas era enorme, porque a madeira também fazia casas e navios da Marinha Real. Em 1559, perante relatos de que as reservas de madeira junto a Worcester estavam muito baixas, uma lei proibiu o corte de árvores para ferro a menos de catorze milhas do rio Severn.
Keren
E depois alguém teve a ideia de cozer o carvão. Abraham Darby, que começou a vida em cervejarias, percebeu a vantagem do coque. O carvão em bruto estragava o ferro com enxofre, e o coque, mais puro, resolvia isso. Em 1709, foi o primeiro a alimentar um alto forno com coque em vez de carvão vegetal. Depois Henry Cort descobriu como transformar o ferro gusa de Darby em ferro forjado, sem carvão vegetal.
Marcelo Costa
E aqui a história encadeia se. Mais carvão e mais ferro exigiam minas mais fundas, e minas mais fundas exigiam bombear água, o que levou às máquinas a vapor de Savery, Newcomen e depois de Watt. Mas o motor de Watt só rugiu a sério quando conheceu John Wilkinson, um homem tão obcecado por ferro que trabalhava numa secretária de ferro, encomendou uma ponte de ferro, construiu um barco de ferro e pediu para ser enterrado num caixão de ferro. Foi ele que ajudou Watt a forjar um cilindro e um êmbolo de ferro quase perfeitos. Em 1800, noventa e cinco por cento da energia britânica vinha do carvão, enquanto em França mais de noventa por cento ainda vinha da queima de madeira. O rendimento por pessoa britânico, que durante séculos fora semelhante ao francês, subiu, e no início do século dezanove era oitenta por cento superior.
Keren
Dá para imaginar o contrário? Voltar ao carvão vegetal, como alguns defendem?
Marcelo Costa
O Conway faz essa conta. O Brasil ainda usa muito carvão vegetal, por isso é teoricamente possível. Mas, para substituir todo o coque necessário ao consumo britânico de trinta milhões de toneladas de aço, seria preciso quase metade da superfície do Reino Unido para produzir carvão vegetal. Para a produção mundial, seria preciso abater metade da Amazónia. Não é nostalgia que mantém o carvão nos altos fornos. É energia por quilograma e é geografia.
Chapter 3
Ligas, falhas e dependências escondidas
Keren
Voltemos ao torpedo, com as suas trezentas toneladas. O que vem a seguir é a parte que me surpreendeu, porque o aço sai de uma coisa chamada conversor de oxigénio básico, um nome tão aborrecido para um processo tão violento.
Marcelo Costa
O ferro gusa líquido é despejado numa panela e depois num cadinho em forma de pera, o conversor, junto com cerca de sessenta toneladas de sucata, desde latas de feijão a peças de automóveis. Uma lança injeta oxigénio puro a velocidade supersónica. Vinte minutos depois, o que entrou com quatro por cento de carbono sai como aço líquido com cerca de zero vírgula quatro por cento. O que antes exigia semanas de trabalho em forjas artesanais faz se em minutos. E há outro paradoxo: o aço novo é em parte reciclado, num setor que parece sujo e desperdiçador mas tem uma das taxas de reciclagem mais altas que existem.
Keren
E a seguir ainda é preciso moldar. Lembro me da imagem do laminador: uma placa de mais de duzentos milímetros, com cerca de nove metros, passa por cilindros gigantes e sai como uma chapa de pouco mais de um milímetro e um quilómetro de comprimento. Tudo em poucos minutos. E depois um robô escreve um código na bobina, o tipo de aço e o cliente final.
Marcelo Costa
Laura Baker, responsável de desenvolvimento de produto em Port Talbot, disse ao Conway que tinham mais tecnologia ali do que a NASA. O aço passa a mil metros por minuto, com a espessura controlada ao nível de cinco centésimas de milímetro. Ela chamou lhe uma forma de nanotecnologia. E o ponto é que o aço comum de hoje é muito melhor do que o de há umas décadas: a resistência, o desempenho elétrico e a resistência à corrosão aumentaram quase dez vezes em cinquenta anos.
Keren
Mas o que mudou o mundo, segundo o livro, não foi só ser bom. Foi ser barato. O exemplo dos pregos é maravilhoso: em 1810, os americanos gastavam em pregos de ferro a mesma fatia do rendimento nacional que hoje gastam em computadores.
Marcelo Costa
E a isso junta se uma coisa muito pouco glamorosa: normas. Em 1917, quem quisesse comprar um machado de uma só lâmina nos Estados Unidos tinha novecentas e noventa e quatro mil oitocentas e quarenta variedades à escolha. Foi o governo, sob o presidente Herbert Hoover, que introduziu padrões, para que parafusos e porcas tivessem tamanhos definidos. Por isso, o que o aço tem de especial, diz o Conway, é ser muito bom e muito barato, e essa baratez é a sua arma secreta, porque o torna uma parte quase invisível das estatísticas do produto interno bruto.
Keren
Depois da lava vem a alquimia, não é? Quando o aço sai do conversor ainda é aço simples, o aço macio, e é aí que se acrescentam os ingredientes.
Marcelo Costa
São pitadas, mas decisivas. Com cerca de um vírgula sete por cento de manganês, obtém se um aço duro e dúctil, ideal para carris de comboio. Com silício, um aço elétrico, usado com o cobre em motores e transformadores. O aço inoxidável tem doze por cento de crómio, por vezes com níquel. Para o trem de aterragem de um avião, usa se molibdénio, silício e vanádio. Há centenas de ligas, e todas começam ali, com uma pequena dose de ingredientes especiais deitada no metal líquido.
Keren
E depois vêm as dependências escondidas, que é o que me inquieta. O minério de ferro é fácil de encontrar, mas estes aditivos, não.
Marcelo Costa
Cerca de setenta por cento do nióbio do mundo vem de uma única mina no Brasil. O nióbio endurece o aço para motores de aviões, gasodutos, ímanes supercondutores e esqueletos de pontes e arranha céus. Na Segunda Guerra Mundial, alemães e britânicos disputaram a simpatia da Turquia, neutra, em parte porque ela produzia quase todo o crómio usado pelos nazis. E quando o Conway visitou Port Talbot, pouco depois da invasão da Ucrânia, a preocupação era o manganês, em boa parte vindo do centro da Ucrânia. Voltaremos à Ucrânia, mas repara como a geografia dos aditivos é mais concentrada do que a do próprio ferro.
Keren
Há também o Henry Ford, que andou meses a investigar ligas para o Modelo T e escolheu aço de vanádio. Os anúncios da época diziam que era o aço mais fino e mais caro, usado em todo o carro. Sem essa liga mais leve e mais forte, o Modelo T talvez nunca tivesse existido.
Marcelo Costa
E o paradoxo é que hoje temos aços avançados de alta resistência, com manganês, silício, alumínio e por vezes vanádio, e mesmo assim os carros são consideravelmente mais pesados do que há décadas. O peso da carroçaria e do chassis tem diminuído, mas os fabricantes compensam fazendo carros maiores e acrescentando equipamento. É o que os economistas chamam paradoxo de Jevons, por causa de William Stanley Jevons, que defendeu no século dezanove que, por mais eficientes que fizéssemos as máquinas, arranjaríamos novas razões para queimar tanto carvão, ou mais. Porém, note se que a leitura é do Conway: o aço fica melhor, mas o consumo total não cai necessariamente.
Keren
E depois há as falhas, que ensinam tanto como os sucessos. O Titanic, em 1912. Estava feito com alguns dos aços mais fortes da época, mas análises a metais recuperados do casco mostram um aço com muito enxofre, pouco manganês e propenso a estilhaçar a baixas temperaturas. Muitos dos rebites eram de ferro forjado barato, e também mais vulneráveis.
Marcelo Costa
Com aços modernos, segundo o Conway, o navio poderia ter tido melhores hipóteses de sobreviver ao iceberg. E o mesmo fenómeno, a passagem de dúctil a frágil com o frio, apanhou os navios Liberty da Segunda Guerra Mundial. Construídos à pressa, alguns partiram ao meio sem aviso ao entrar em águas mais frias. Hoje há milhares de graus diferentes de aço: aço mais flexível, mais rígido, mais grosso do que um tronco de árvore ou mais fino do que papel de cozinha.
Keren
E a minha favorita: a esferográfica chinesa. Em 2015, o então primeiro ministro Li Keqiang visitou o Fórum Económico Mundial, na Suíça, pegou numa esferográfica e ficou espantado. Perguntou porque é que a China não conseguia fazer uma caneta que escrevesse tão bem.
Marcelo Costa
A China fabricava oitenta por cento das canetas do mundo, mas não conseguia produzir a minúscula esfera de aço e o respetivo encaixe. Para uma boa ponta, importava as peças de aço do Japão, da Alemanha ou da Suíça. Passou a ser uma vergonha nacional: fabricantes e siderurgias foram expostos na televisão. Dois anos depois, uma siderúrgica estatal anunciou que tinha conseguido, e a televisão estatal celebrou como um motivo de festa nacional. É um bom lembrete de que quantidade de aço e precisão de aço são coisas diferentes.
Keren
E o último caso é de ficção científica. O aço de baixa radiação de fundo.
Marcelo Costa
Desde os primeiros testes atómicos, a atmosfera da Terra contém vestígios de contaminação nuclear, isótopos como o cobalto sessenta, em quantidades tão pequenas que não representam risco discernível para os humanos e que vão diminuindo. Mas como a produção de aço injeta oxigénio obtido do ar, entram sempre vestígios de radionuclídeos. Para contadores Geiger e certos dispositivos médicos sensíveis, só serve aço anterior a 1945. A fonte são navios afundados. Parte do aço de navios alemães afundados em Scapa Flow acredita se que foi retirado e transformado em equipamento médico, e há um comércio ativo de pirataria de metal em velhos navios de guerra, sobretudo no mar do Sul da China. O HMAS Perth, afundado em 1942 ao largo de Java, terá perdido sessenta por cento do casco para saqueadores. São túmulos de marinheiros que estão a ser pilhados.
Chapter 4
De Yuzovka a Azovstal, a geopolítica do aço
Marcelo Costa
Esta química toda tem uma geografia política. O Conway lembra que países de todos os regimes se fixam no aço. Em 2018, ao anunciar tarifas sobre as importações de aço, Donald Trump escreveu, em maiúsculas: se não tens aço, não tens um país. Os economistas não têm grande paciência para argumentos assim, porque se um país pode comprar mais barato lá fora, deve fazê lo. A lógica é difícil de contestar. Mas quase todos os presidentes americanos, republicanos e democratas, procuraram proteger a indústria.
Keren
E o Conway explica a origem da siderurgia ucraniana como exemplo da mesma obsessão. Depois da derrota humilhante da Rússia na guerra da Crimeia, nos anos 1850, o novo czar, Alexandre Segundo, lançou reformas para recuperar o atraso em relação ao Ocidente. A bacia do rio Donets, no que então era parte do império russo, tinha carvão e minério, mas ninguém na Rússia sabia construir uma siderurgia. Foi preciso ir buscar fora.
Marcelo Costa
Veio de Gales. John James Hughes, filho do engenheiro chefe das fundições de Merthyr Tydfil, dirigia a Millwall Iron Works, em Londres, que fornecia todo o ferro para o revestimento dos navios da Marinha Real. Em 1870 foi até ao mar de Azov e à bacia do Donets. Poucos anos depois, os altos fornos estavam a trabalhar e viriam a ser o maior produtor de ferro do império. Fundou uma povoação, Yuzovka, a cidade de Hughes, que hoje é uma grande cidade, Donetsk. E o Conway insiste: importar conhecimento e depois construir um império em cima dele é o que quase todos os países fizeram. Carnegie trouxe o conversor Bessemer para os Estados Unidos. E nos anos 2000 uma empresa chinesa comprou uma fábrica da ThyssenKrupp em Dortmund e transportou a, tijolo a tijolo, para o rio Yangtzé.
Keren
Foi desse sítio que nasceu a Shagang?
Marcelo Costa
O local onde foram reconstruídos esses edifícios alemães, a norte de Xangai, é hoje a maior siderurgia do mundo, com treze altos fornos, quando o máximo numa siderurgia americana são quatro. Produz mais do dobro do aço da ThyssenKrupp. E a China produziu na última década mais aço do que os Estados Unidos desde o início do século vinte. O mesmo padrão aparece em Magnitogorsk, nos Urais, construída em 1932 por ordem de Estaline junto a uma montanha magnética, com tanto ferro que as bússolas não funcionavam e as aves não a sobrevoavam. O arquiteto era alemão, a fábrica era inspirada na da US Steel em Gary, no Indiana, e os engenheiros eram americanos.
Keren
Mas Magnitogorsk tinha um problema, não tinha? Estava longe de tudo.
Marcelo Costa
Longe do porto mais próximo, milhares de quilómetros, e a quase dois mil quilómetros dos campos de carvão. Para Estaline, isso era parte do atrativo, porque nenhum exército invasor chegaria lá. Mas, para a fábrica seguinte, os planeadores soviéticos voltaram ao leste da Ucrânia, onde ferro, carvão e água estavam juntos e havia acesso ao mar Negro. Pegaram nos planos de Magnitogorsk e construíram a Azovstal. Os carris em que andou grande parte da rede soviética e muita da europeia foram laminados ali. Depois do fim do comunismo, o oligarca Rinat Akhmetov comprou várias siderurgias, incluindo a Azovstal. E o custo ficou na cidade: Mariupol era das mais poluídas da região, com mais cancro e doenças respiratórias do que a média do país.
Keren
E nos subprodutos escondem se coisas improváveis. A escória dos altos fornos servia de cimento à volta da cidade. E os conversores consumiam tanto oxigénio que empresas se instalaram para aproveitar os gases residuais. Foi assim que a Ucrânia se tornou, quase por acidente, um dos maiores produtores industriais de néon.
Marcelo Costa
E essa é a ligação com os semicondutores. O néon é usado para controlar os comprimentos de onda dos lasers das máquinas de fotolitografia. Quando a Azovstal e as suas congéneres ucranianas, responsáveis por quase metade do abastecimento mundial de néon, pararam, o mundo começou a ter falta do gás. Fabricantes de chips em Taiwan, na Coreia do Sul e até no sul de Gales começaram a fazer stocks. É a lição do livro: um subproduto obscuro de uma cadeia pode ser essencial para outra, do outro lado do planeta.
Keren
Depois há o lado humano do cerco. Mariupol foi bombardeada durante semanas. Alguns habitantes refugiaram se numa rede de abrigos fundos por baixo das máquinas da fábrica. E, sem o diretor saber, cerca de três mil combatentes ucranianos, alguns do Regimento Azov, que o Conway descreve como um contingente controverso, com muitos membros com ligações à extrema direita, também lá estavam. A Starlink permitiu transmitir ao mundo. A comida acabou, os adultos tinham uma pequena refeição por dia, a água escasseava, e houve quem bebesse álcool gel dos distribuidores instalados durante a covid dezanove.
Marcelo Costa
Ao fim de oitenta dias, os civis puderam sair e os combatentes restantes renderam se. A maioria foi libertada em trocas de prisioneiros nos meses seguintes. Mais de quatrocentos corpos de soldados foram devolvidos para enterro, e alguns acreditava se que continuavam sob os escombros. Tskitishvili disse num vídeo que a fábrica voltaria, que como tinha ressurgido depois dos nazis voltaria a trabalhar. E o Conway tira uma conclusão contra a ideia de obsolescência: parecia uma guerra de drones e redes sociais, longe do tufão de aço que os japoneses descreveram em Okinawa, em 1945. Mas as guerras do século vinte e um continuam a ser feitas com aço, armas, bombas e blindagem. Só que não prestamos atenção, porque sempre assumimos que se podia importar aço laminado a frio da China.
Keren
E há o caso mais sombrio do poder do aço, o da China de Mao.
Marcelo Costa
No fim dos anos cinquenta, Mao prometia que a China ultrapassaria a produção britânica em três anos e a americana em dez. As siderurgias foram forçadas a produzir sem parar e, quando isso não bastou, a população recebeu ordem de construir fornos de quintal e de deitar lá metal velho. Panelas, tachos, ferramentas agrícolas, charruas, carroças. Casas foram demolidas para queimar a madeira e a palha, florestas inteiras foram abatidas, com inundações nas décadas seguintes, e milhões de camponeses foram retirados dos campos para vigiar os fornos.
Keren
E o que saiu desses fornos?
Marcelo Costa
Nem Mao nem muitos dos conselheiros percebiam a diferença entre ferro e aço. Muito do que saiu eram ferro gusa quebradiço e inútil, não aço. E o custo foi terrível. A China viveu a pior fome da história, entre 1958 e 1962. A estimativa final continua em debate, mas as estimativas conservadoras vão de dezassete a trinta milhões de mortos, por fome e esgotamento. Alguns recorreram ao canibalismo. É o exemplo extremo de como a fixação política no aço pode ser desastrosa quando se confunde um número de produção com a capacidade real de fazer um material.
Chapter 5
Pilbara, Juukan Gorge e o dilema do aço verde
Keren
Agora vamos para o outro lado do mundo, onde começa a cadeia. A Pilbara, na Austrália Ocidental. Temperaturas que passam muitas vezes os quarenta e cinco graus, avisos de que a próxima bomba de gasolina está a centenas de quilómetros, e o solo vermelho. Vermelho nos vales, vermelho nas montanhas, vermelho nas botas e no para brisas. E a razão, diz o Conway, é que a terra parece ferrugem porque é ferrugem.
Marcelo Costa
São as formações de ferro bandado, restos da atividade oceânica do período Pré Câmbrico, camadas de ferro, sílex, xisto, siltito e dolomite. E a hematite, que vem do grego para sangue, tem os átomos de ferro no mesmo estado de oxidação dos que correm nas nossas veias. A Austrália tem mais minério de ferro explorável do que qualquer outro país. Extrai mais do dobro do Brasil e cerca de três vezes mais do que a China. Aqui está um ponto geopolítico curioso: a China domina quase tudo no fabrico, do aço ao betão e ao plástico, mas depende totalmente da Austrália para este minério. Construir uma indústria doméstica de minério de ferro foi um objetivo estratégico de Pequim pelo menos desde os anos noventa, e todos esses milhares de milhões de renminbi não resolveram. Não se foge à geologia.
Keren
E a descoberta tem uma história que o próprio Conway diz que os biógrafos questionam. Novembro de 1952, Lang Hancock a voar de regresso a Perth com a mulher, numa avioneta de dois motores, e vê uma trovoada. Baixa a altitude, entra pelos desfiladeiros e repara que as paredes pareciam ferro maciço, com aquela cor de óxido. Mas não há registo de chuva na serra de Hamersley nesse dia.
Marcelo Costa
Seja como for, voltou, apanhou um pedaço de pedra e achou o pesado. O minério é notavelmente pesado. A serra era essencialmente feita de hematite. Na altura, a convicção era que a Austrália tinha ferro para pouco mais de duas gerações, por isso havia um embargo às exportações. Levantado em 1960, Hancock convenceu a Rio Tinto a explorar a serra, com direito a dois vírgula cinco por cento de royalties por cada tonelada, em perpetuidade. Uma pequena percentagem de um número gigantesco continua a ser enorme. Quando morreu, em 1992, a empresa e os royalties passaram para a filha, Gina Rinehart. E hoje a Pilbara é de onde se tira o ferro barato e depressa. Mount Whaleback deixou de ser uma montanha: é um buraco de seis quilómetros por três, com centenas de metros de profundidade, e o minério foi parar aos arranha céus de Xangai e aos carris dos comboios de alta velocidade entre Tóquio e Osaca.
Keren
E é aqui que entra Juukan Gorge. Quero contar com cuidado, porque é o capítulo mais duro. Os povos aborígenes da região, e o Conway explica que a filosofia do Dreaming é toda sobre ligação à terra, têm uma história cultural contínua de dezenas de milhares de anos, incrustada na própria rocha. Em 1972, uma lei do património aborígene deveria ter acabado com a destruição de lugares sagrados. Mas nem sempre foi assim.
Marcelo Costa
O caso é o da mina Brockman 4. Em 2013, a Rio Tinto pediu autorização para a ampliar. O terreno incluía um desfiladeiro, Juukan Gorge, com duas grutas, ligado ao povo Puutu Kunti Kurrama. Os arqueólogos contratados pela própria empresa concluíram que as grutas tinham elevada importância arqueológica e que deviam ser protegidas, salvo se fosse inevitável. A Rio Tinto estudou três planos alternativos que evitavam o sítio, mas que implicavam sacrificar até oito vírgula um milhões de toneladas de minério, no valor de cerca de cento e trinta e cinco milhões de dólares americanos. Pediu licença para perturbar as grutas, e a licença foi concedida.
Keren
E à medida que escavavam, os achados eram cada vez mais extraordinários. Uma datação por radiocarbono pôs os artefactos de uma das grutas, a Juukan 2, nos quarenta e seis mil anos, entre os mais antigos da Pilbara. Pedras de moer, um osso de canguru afiado como lança, e um cinto entrançado de cabelo humano, com ADN igual ao dos Puutu Kunti Kurrama de hoje. Um dos peritos disse que era um dos sítios arqueologicamente mais significativos da Austrália.
Marcelo Costa
E mesmo assim, segundo o livro, a empresa continuava a descrever o valor arqueológico como baixo a moderado. Em finais de 2019, a arqueóloga Heather Builth perguntou ao gestor de operações da mina, Brad Webb, o que se ia fazer ao desfiladeiro. Ela recorda que ele garantiu que não havia planos para estender a mina até lá. Webb recorda de forma diferente: disse que não tinha certeza de onde ela apontava e que deu uma resposta evasiva. Em abril de 2020 foram furados buracos de onze metros por cima das grutas, e no início de maio foram carregados com explosivo à base de nitrato de amónio. Só a quinze de maio os representantes do povo foram informados de que as grutas iam ser destruídas, já com o explosivo colocado.
Keren
E disseram lhes que já era tarde.
Marcelo Costa
Disseram que já era tarde, porque o fabricante recomendava detonar em catorze dias. A empresa adiou uns dias, e a vinte e quatro de maio de 2020 carregou no botão. A Juukan 1 ficou coberta de pedra, mas a forma parece ter sobrevivido. A Juukan 2 foi completamente destruída. Um inquérito parlamentar australiano revelou que, apesar de dizer que era impossível desativar o explosivo, a Rio Tinto conseguira retirar algumas cargas, as que destruiriam a poça sagrada em forma de cabeça de serpente, que não tinha direito legal de destruir. E nunca contou ao povo que existiam os três planos alternativos. O diretor executivo e outros dois executivos saíram, embora com indemnizações generosas, e o presidente do conselho seguiu os pouco depois. Uma revisão externa encontrou padrões de racismo, sexismo, assédio e agressão sexual.
Keren
O que ficou comigo foi a submissão do povo ao inquérito: falavam de medo, ansiedade e desesperança por os espíritos dos antepassados já não terem lugar de descanso. E havia uma senhora com quase cem anos, a última filha de Juukan, que deu nome ao desfiladeiro. Ninguém lhe contou, porque temem que a notícia a mate. Esperam que nunca descubra.
Marcelo Costa
E o Conway acrescenta uma coisa incómoda: somos todos, de alguma forma, cúmplices. O minério barato da Austrália é parte da razão pela qual a China produz bens baratos para o resto do mundo, nas fábricas onde se fazem os nossos telemóveis, as baterias e os brinquedos. A Rio Tinto detona cerca de um milhão de furos de explosivo por ano, em média um a cada trinta segundos. Alguns estimam que se destruam, com aprovação governamental, uma ou duas centenas de sítios e objetos culturais por ano. E o mesmo minério está a corrigir, devagar, a desigualdade de aço entre países, ajudando a Ásia e depois a África a construir estradas, caminhos de ferro, escolas e centros de saúde. É aí que o dilema aperta. Se todo o mundo atingisse as quinze toneladas por pessoa, o stock global passaria de trinta e dois para cento e quarenta e quatro mil milhões de toneladas, quase quatro vezes tudo o que a humanidade produziu na sua história. E a siderurgia já responde por sete a oito por cento das emissões. Descarbonização e desenvolvimento a caminho de uma colisão.
Keren
Há saída? Ou pelo menos um caminho?
Marcelo Costa
O Conway aponta razões para algum otimismo, com cautelas. Nos países ricos, a quantidade de aço por pessoa está mais ou menos estável há décadas nos Estados Unidos e no Reino Unido, o que sugere que há um ponto de saturação. E o aço recicla se bem, porque é magnético e fácil de separar. Mais de dois terços do aço americano já vem de sucata, fundida em fornos de arco elétrico, as mini fábricas de aço. Imagina um futuro em que os países ricos vivem quase só de aço reciclado, com edifícios desmontados de trinta em trinta ou de quarenta em quarenta anos. Pelas tendências atuais, na segunda metade deste século teremos mais aço da reciclagem do que do minério. A Pilbara ficaria mais calma, e a China teria altos fornos a mais, que poderia enviar para África, como importou tijolo a tijolo da Alemanha e dos Estados Unidos. Mas há um senão: a maior parte do aço reciclado é de baixa qualidade, vai para a construção, e os carros continuam a ser feitos sobretudo de aço virgem.
Keren
E para o aço virgem sem alto forno?
Marcelo Costa
A redução direta do ferro, ou DRI, converte o minério em ferro sem carvão e sem emitir dióxido de carbono, usando hidrogénio. Mas há duas dificuldades. Primeiro, é preciso muito hidrogénio, e o hidrogénio verde, produzido sem queimar combustíveis fósseis, é caro. Segundo, não se pode usar qualquer minério: exigem se pellets com teor de ferro muito superior ao da maioria dos altos fornos. E o minério da Pilbara, cuja qualidade tem vindo a descer à medida que os melhores veios se esgotam, pode não servir. Quer dizer que o aço verde não depende só de vontade política, depende de química e de geologia.
Keren
Então a caça é a minério de elevada pureza. E a história do maior jazigo tem um quê de farsa. Anos sessenta, um helicóptero da filial brasileira da US Steel obrigado a aterrar numa colina no Pará. Uma versão popular entre especialistas diz que um dos geólogos precisava de aliviar a bexiga. Desceu, reparou na cor estranha do solo, apanhou uma pedra surpreendentemente pesada, partiu a com um martelo e viu uma superfície vermelha vivo. Minério incrivelmente puro. É Carajás, a maior mina de ferro do mundo.
Marcelo Costa
Com um senão, claro: fica na orla da floresta amazónica. A Vale garante que faz tudo o que pode para ser sensível ao ambiente, mas é difícil explorar minério sem raspar a superfície da terra, e cada nova milha quadrada de mina é desflorestação. Na Guiné, há depósitos riquíssimos, com direitos da Rio Tinto e de um consórcio chinês, mas no início de 2022 a junta militar ordenou a paragem. E há a magnetite, menos pura mas adequada a ser concentrada em pellets, em Kiruna, no norte da Suécia, que fornecia parte do armamento das duas guerras e hoje está na vanguarda do aço verde. E há Magnitogorsk e Kryvyi Rih, na Ucrânia, de onde veio tanto do minério da Azovstal.
Keren
E a história de Port Talbot, que o próprio Conway atualizou?
Marcelo Costa
Em março de 2024, nas notas que publicou, ele refere que as baterias de coque fecharam mais cedo do que o esperado, e que os altos fornos estavam marcados para encerrar nesse ano, para serem substituídos por fornos de arco elétrico. Algo semelhante está previsto em Scunthorpe. O resultado seria que o país de Abraham Darby e de Henry Bessemer, que inventou grande parte da siderurgia moderna, deixaria de poder fazer aço virgem. Quando o autor visitou Port Talbot, a fábrica já tinha sido dada como acabada muitas vezes. Desta vez, o fim parece mais concreto.
Keren
E o aço não se substitui facilmente, pois não?
Marcelo Costa
Há alternativas: dá para fazer um arranha céus de madeira, a fibra de carbono e a fibra de vidro têm maior relação resistência peso, e o alumínio serve para grande parte da carroçaria de um automóvel. Mas um carro de alumínio ainda precisa de aço ao boro para reforçar os pontos críticos de segurança, e o custo em carbono do aço, por alto que seja, é inferior ao da fibra de carbono, feita de petróleo e gás natural. E há a razão mais profunda: somos muito bons a obter e a fazer este metal. O ferro generalizou se quando passámos a usar combustíveis fósseis para o produzir sem consumir as florestas. E o aço mudou o mundo não quando foi descoberto, mas quando Bessemer o fez em minutos.
Keren
E é por isso que o episódio acaba onde começou: numa fábrica de Mariupol, num forno parado, numa mina na Austrália onde uma gruta de quarenta e seis mil anos deixou de existir. Os ossos da civilização estão cheios de histórias, e muitas delas pagam se em coisas que não cabem numa fatura.
Marcelo Costa
E a pergunta de fundo não é se precisamos de aço. É quanto, para quem, produzido com que energia e com que respeito pelos sítios de onde vem a rocha. A resposta, no livro, não vem pronta. Vem como um dilema que a física e a geologia não deixam resolver só com boas intenções.